Então o vice-governador Feijó, meu ex-político preferido, entrou no século XXI com o seu blog, postando idéias típicas do século XVIII, incluindo no pacote, censura a posts que demonstram a peculiaridade da tal idéia de "publicização", mais uma tentativa brasileira de inventar a roda. Bom, agora vamos analisar o post "
Porque defendo a publicização" de Feijó numa ótica liberal, algo que Feijó deixa na portaria do Palacinho antes de ir trabalhar. Para melhor diferenciação, colocarei as os pensamentos de Feijó em vermelho (faz sentido).
Os governos têm sido omissos ao não implementarem um programa estadual de reforma que possibilitaria ao poder público oxigenar suas estruturas, ter maior mobilidade e poder de ação nas áreas prioritárias para a população.E quais são estas áreas? Segurança pública, saúde e educação.O sr. Feijó sempre gostou de salientar seu liberalismo, inclusive, colocando a seguinte frase no masthead do seu blog: "Este blog tem como objetivo debater com a sociedade, de forma transparente, questões sobre administração pública, modernização de gestão e ideais liberais." Desde quando saúde e educação estatais são partes do ideário liberal? Deixe me ver... Desde nunca! Parece que Feijó não está a par do termo
night watchman state, um termo cunhado no século XIX por liberais. E confirmada por Mises no seu livro
Liberalism:
This is the function that the liberal doctrine assigns to the state: the protection of property, liberty, and peace.
Pois é, um dos maiores pensadores do liberalismo descreve com precisão o que é a função do estado liberal. A não ser, claro, que Feijó esteja para lançar um novo texto reformulando radicalmente a idéia de liberalismo. Vamos então partir para uma análise do puxadinho ideológico de Feijó.
Educação é certamente uma área prioritária para a população. E devido a isso, esta deveria estar bem longe das garras da burocracia estatal. O estado vem se demonstrando um péssimo gestor de sistemas educacionais, uma vez que este não sofre competição e pelo simples fato da educação estatal não ser nada mais do que doutrinação esquerdista, como é provado no
The Deliberate Dumbing Down of America. Só que esta mistura de doutrinação com incompetência e não-liberdade de escolha tem um preço, e alto. De acordo com o estudo
What Does a Voucher Buy? A Closer Look at the Cost of Private Schools de David Salisbury, a anuidade média de uma escola particular nos EUA é de US$ 6,779 enquanto que os gastos per capita no ensino público chega a US$ 8,830, ou seja, a escola particular é US$ 2,051 mais barata do que uma escola pública. Isso para não dizer que o ensino privado é muito melhor do que o ensino estatal, e isto é fartamente
comprovado em literatura científica.
Agora vamos analisar o outro "pilar" do puxadinho ideológico de Feijó: a saúde. Eu adoro de paixão ver alguém com plano de saúde defender qualquer coisa que possa parecer com saúde provida pelo estado. Deixa pra lá. Vamos aos fatos. Um dos países mais citados no mundo no campo da saúde pública é o Canadá. O sistema de saúde pública canadense é tão avançado que criou uma peculiar saída para a superlotação do mesmo:
exportar doentes para o sul da fronteira, a terra do Tio Sam. Isso aí, os canadenses cruzam a fronteira para se tratarem e comprarem remédios. O sistema público de saúde no Canadá é louvado no pseudofilme
Sicko, do protótipo mal-acabado de pessoa chamado
Michael Moore. O filme é de uma picaretagem ímpar,
cheio de erros factuais e sendo
criticado por canadenses revoltados com as mentiras propaladas por Moore em prol da causa da saúde pública universal e "gratuita".
No meu entender, só quando estas três áreas contemplassem plenamente as demandas da população é que poderia o Estado aumentar sua área de ação para outras esferas.E então Feijó deu argumentação para as nacionalizações de
Hugo Chávez,
Evo Morales e outros ditadores de esquerda. E o que seriam estas "outras esferas"? Qualquer coisa que der na telha do burocrata de plantão. Países modernos e liberais à Feijó como
Coréia do Norte e
Cuba aumentaram suas áreas de ação para outras esferas e hoje podemos dizer com total cerrteza que tais lugares são dois paraísos na Terra, com saúde e educação públicas, claro. E aquela idéia de
governo limitado, ou, nas palavras de Thomas Jefferson em seu
1º discurso de posse:
"With all [our] blessings, what more is necessary to make us a happy and a prosperous people? Still one thing more, fellow citizens--a wise and frugal Government, which shall restrain men from injuring one another, shall leave them otherwise free to regulate their own pursuits of industry and improvement, and shall not take from the mouth of labor the bread it has earned. This is the sum of good government, and this is necessary to close the circle of our felicities."
E o que é a publicização? Nada tem a ver com privatização.É importante que se tenha isto bem claro.Bom, Feijó deixa claro que a tal "publicização" não tem nada a ver com privatizações. Ou seja, tais instituições continuariam a ser braços de um governo falido e inchado que não consegue deixar de atrapalhar a iniciativa privada gaúcha. Até mesmo a Câmara dos Deputados num estudo chamado
Privatizações chega a seguinte conclusão:
Apesar da efetiva interrupção do programa de privatização, é razoável postular sua reativação.
Ainda há espaço para avançar nesse processo com ganhos de bem-estar à sociedade nos setores elétrico, petróleo, gás, água e esgotos, bancário, correios, resseguros, para citar os principais.
É desnecessário lembrar as inúmeras
vantagens do processo de privatizações: fim de monopólios estatais que não permitem o acesso a melhores produtos e serviços; fim da utilização de instrumentos produtivos como cabide de empregos de correligionários do governante do momento; fonte extraordinária de receitas que o estado pode usar para abater dívidas, constituir fundos; fim da necessidade do estado ter que utilizar dinheiro público para financiar atividades anti-econômicas; maior transparência e igualdade de concorrência, já que o estado passa a ser apenas o regulador e não mais o regulador e um
player e muitas outras vantagens que o Brasil vê com o sucesso da
Embraer,
Vale do Rio Doce,
CSN e muitas outras empresas que antes estavam em situação trágica nas mãos do estado e que hoje são empresas globais, lucrativas, gerando muito mais trabalho e renda do que na época em que elas eram estatais "estratégicas". Sabendo-se do entender de Feijó que o estado pode se aumentar para outras áreas de atuação, eu não ficaria surpreso em vê-lo assinando o
abaixo-assinado pedindo a estatização da Vale do Rio Doce.
Na prática é o mesmo que dizer que o órgão (vou usar aqui um exemplo aleatório) como o IRGA, passa a gerenciar seus próprios recursos, se autoadministrar, vender seus produtos no mercado e não apenas para o governo. Todas estas ações são amplamente supervisionadas pelo governo, dentro do que manda a legislação específica e, em caso de prejuízo, não oneram os cofres públicos. O Estado é o responsável pela cobrança de resultados, cumprimento de metas, e definição de políticas públicas, estabelecidas em contrato. Os órgãos passam a ter que ser autosustentáveis e para isto racionalizam suas despesas, melhoram a gestão, profissionalizam a administração. As indicações políticas e os possíveis desvios de dinheiro público acabam porque não é mais o dinheiro público que sustenta o órgão.Vamos analisar este trecho de trás para a frente, utilizando-se da expressão de fé "[a]s indicações políticas e os possíveis desvios de dinheiro público acabam porque não é mais o dinheiro público que sustenta o órgão." Como que uma instituição estatal não terá indicações políticas? O preenchiento de cargos de tais instituições publicizadas se daria por meio de sorteio? Mesmo se for por nomeação do governador com aprovação da Assembléia, o risco de nomeação política não está descartado, uma vez que a máquina política é o meio de aprovação dos nomes para os entes publicizados. E o simples fato de não haver dinheiro dos impostos não quer dizer que o mesmo não possa ser desviado.
Agora chegamos nas metas, os tais "contratos de gestão". Que contrasenso, uma entidade provendo serviços para o mercado tendo que cumprir metas definidas pelo estado; ah, não temos garantia que estas metas sirvam a interesses políticos-partidários. Ora, as metas, resultados e semelhantes de uma empresa de mercado devem ser reguladas e definidas pelo próprio mercado. Parece que o sr. Feijó nunca ouviu falar da
mão invisível ou do
laissez-fare. Diga-se de passagem, até o presente momento, Feijó só fez um discurso pró-
economia planejada centralmente.E vamos para outra declaração de fé de Feijó - como se sabe, o pensamento de esquerda é apenas uma doutrina religiosa, uma vez que nenhum fundamento da pregação esquerdista consegue ser provado de uma maneira científica. Feijó afirma que "[t]odas estas ações são amplamente supervisionadas pelo governo, dentro do que manda a legislação específica e, em caso de prejuízo, não oneram os cofres públicos." Outra declaração de fé cega sem nenhuma base na realidade. Veja lá, se muitas empresas privadas já receberem injeções de dinheiro público quando em dificuldades financeiras, como a
United Airlines, o que garantirá que tais entes publicizados não receberão ajuda financeira estatal em caso de dificuldades? Nada! Até porque os
bail out angels terão mais facilidade política de pedir, e dar, ajuda financeira a uma organização estatal publicizada do que para uma empresa privada.
Se o governo tivesse mais mobilidade financeira, não precisando distribuir suas verbas entre tantos órgãos que prestam serviços os quais a iniciativa privada tem condição de suprir com certeza não teríamos 88% dos gaúchos sentindo falta de segurança, conforme pesquisa publicada pelo jornal Zero Hora, de 22/07/2007.A questão não é mobilidade de transferência de recursos mas sim a propriedade de organismos que prestam serviços típicos da iniciativa privada. E se a iniciativa privada tem condições de suprir tais demandas, qual a razão de não inserir tais organismos na iniciativa privada por meio de privatizações? Essa é fácil, preconceito ideológico! Além disso, cabe notar a utilização peculiar da língua portuguesa por Feijó nesta parte do texto.
De outra forma a armadilha é ficar mais um governo na inércia, frustrando o futuro dos gaúchos pela falta de coragem em enfrentar os interesses contrários à reforma.Falta de coragem é não discutir privatizações, inclusive do "sacrossanto"
Banrisul (convencer alguém a privatizar o Banrisul é fácil, basta mandar esta pessoa pagar uma guia de ICMS no dia 12). E falado de interesses contrários à reforma do estado, posso citar a medonha Frente Parlamentar em Defesa do Banrisul. Um governo só fica na inércia quando não se mexe em torno de uma idéia, basta que o governo traga uma proposta claro de redução do estado para que a discussão comece. Tal medida criaria automaticamente um conflito com aqueles que são contrários a diminuição da inchada burocracia estadual gaúcha. Mas para isso tudo acontecer, é necessário que haja coragem para se discutir assuntos como privatizações, demissões e outros na própria esfera interna de decisões políticas da administração do estado. Descartar as privatizações com a simbólica frase "[n]ada tem a ver com privatização" faz-me crer que a armadilha da inércia funcionou com precisão.
Entendo que a população não tem, a priori, preconceito com a proposta, mas as coisas devem ser ditas de forma clara, mostrando para cada um que é ele, cidadão, que paga a conta da máquina pública.Vamos ser honestos. Esta proposta de publicização não passa de uma medida estética que não mexe no quadro estrutural do governo gaúcho, uma vez que entidades estatais continuarão a realizar funções que uma empresa privada poderia assumir com menores custos e com concorrência com outra empresas, criando, assim, de forma orgânica, metas e compromissos de resultados que melhorarão as condições finais do mercado.
Em resumo, a defesa da publicização nada mais é do que o expediente utilizado por um pseudoliberal preconceituoso contra as privatizações para dizer que tem um compromisso com uma reforma abrangente do governo estadual. Não querer discutir privatizações no atual quadro é a mesma coisa que fazer uma reforma trocando o seis pelo meia dúzia.